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Algumas considerações

Temos lido diversas opiniões acerca da ciência de Hermes que nós todos tanto amamos.

Como é natural e óbvio, cada um tem o seu ponto de vista diferente, alguns coincidentes mas a maior parte, generalizando sem focar diretamente objetivos bem definidos sobre alquimia prática embrenhando-se na alquimia especulativa por vezes dita "filosófica".

Não queremos de forma alguma ser pretensiosos mas gostaríamos de dar a nossa modesta opinião sobre este assunto tão polémico, respeitando a opinião dos outros como é apanágio da nossa tradição.

Dizem os antigos tratados que alquimia em árabe "Al-khimia" tem o mesmo significado que hoje damos à química (nós diríamos espagíria) só que esta "química" é uma química espiritualista e transcendental. Al em árabe significa Ser Supremo o Todo-Poderoso, como Al-lah. Portanto o termo alquimia, designa desde os tempos mais remotos, a ciência de Deus, ou seja a química de Al.

Os nossos antigos Mestres no seus tratados invocavam sempre a ajuda divina como por exemplo, Alberto o Grande, (1193-1280) no prefácio do seu livro o Composto dos Compostos:

«Não ocultarei uma ciência que me foi revelada pela graça de Deus...» Mais adiante no Capítulo IV, Da Sublimação do Mercúrio: «Em nome do Senhor, procura uma libra de mercúrio puro proveniente da mina

Também Raimundo Lúlio, (1235-1315) no seu livro a Clavícula, diz: «Por isso, com a ajuda e permissão do Altíssimo, que se aprazeu em revelar-me a Grande Obra, falarei aqui da Arte sem nenhuma ficção

Flamel no seu livro o Breviário ou Testamento (1414) também recomenda ao seu sobrinho o seguinte:

«Por isso, não te esqueças de rogar a Deus que te dispense entendimento de razão, de verdade e natureza...»

Até Filaleto (1645) diz:...«certamente a minha pena hesitou frequentemente em escrever tudo desejoso que estava de esconder a verdade sob zelosa máscara, mas Deus me constrangia e não pude resistir-lhe a Ele, único que conhece os corações..»

Nessa época, a Igreja e a fé em Deus incutida por ela tinha muita influência na vivência das pessoas e disso é um triste exemplo o da Inquisição para aqueles que a não professassem. Os profanos que praticavam a alquimia foram perseguidos e, por isso, a maioria dos tratados que hoje conhecemos foram escritos sob pseudónimo para se protegerem.

Há muitos mestres clássicos, contemporâneos e modernos que não fazem qualquer referência nas suas obras à ajuda divina. Hoje, em pleno final do século XX, a alquimia terá de ser encarada sob um prisma diferente embora respeitando a tradição.

Atualmente, tem-se procurado compreender o fenômeno alquímico porquê o modus operandi engloba processos químicos (espagíricos) mas, enquanto na química a reacção entre um sal e um ácido feita em condições semelhantes dá sempre o mesmo resultado, em alquimia, em certas operações não se verifica o mesmo. É aqui que reside a distinção que, presentemente, alguns não aceitam porque sob o ponto de vista da ciência oficial (química) isso não tem lógica alguma.

Consta que Roger Caro, um grande alquimista moderno já falecido, fez a seguinte experiência de uma operação alquímica (Via de Kamala-Jnana) com dois dos seus discípulos. Colocou as mesmas matérias e o fogo secreto em três matrases diferentes devidamente selados.

Entregou um matrás a cada um dos seus discípulos ficando ele com o outro. Iniciaram todos ao mesmo tempo a operação SOLVE. No matrás de Roger Caro a reação exotérmica natural e instantânea (cerca de 400 graus) necessária à sublimação das matérias deu-se imediatamente e no matrás dos discípulos a temperatura ficou-se pelos 80 graus!

Isto leva-nos a concluir que a "bioenergia" do próprio operador poderia ter influência na reação química natural entre as matérias. Nós fizemos por várias vezes a mesma operação com matérias canônicas e também não conseguimos ultrapassar os 80 graus!

Os nossos Mestres dizem que a alquimia é a arte de trabalhar e aperfeiçoar os corpos com a ajuda da Natureza o que, actualmente, não é fácil compreender e mais ainda fazer. Que poderemos nós entender por ajuda da Natureza?

Sabemos pelos antigos tratados que, normalmente, uma obra alquímica era iniciada na Primavera (na Europa) e, também, é nessa estação do ano se recolhe o orvalho e se deliquescem os sais empregados como fogo secreto em algumas obras, porquê nesta estação do ano a atmosfera é abundante em Espírito Universal.

Infelizmente, até agora, em nenhum tratado alquímico que conhecemos encontramos uma definição exata do que os antigos Mestres entendiam por espírito universal e a ajuda da Natureza.

Sabemos também, que a luz polarizada da Lua nas noites de Lua cheia, tem influência na recolha de orvalho e o satura do tal espírito universal. Esse orvalho é por excelência, o veículo para tratar os sais empregados na alquimia.

Há algum tempo atrás tivemos uma "discussão" acerca da importância que a astrologia teria na alquimia. Nós entendíamos que ela tinha alguma importância e citamos o que acima dissemos.

Na ocasião, alguns "astrólogos" do forum contestaram afirmando que a astrologia tinha uma importância fundamental na alquimia operativa e interpretativa, desmultiplicando-se em exemplos astrológicos teóricos e conjunções planetárias citando, inclusivamente como exemplo disso algumas figuras de Abraão o Judeu, etc.

Para lhes provar que não era exatamente o que afirmavam, enviamos ao fórum a primeira figura do Speculum Veritatis de Filaleto, para ser interpretada astrologicamente. Apenas um "astrólogo" fez uma interpretação que ficou muito além do real significado alquímico que ela representava, confirmando-se assim, a minha afirmação.

Depois disso descrevemos simbolicamente a Primeira e a Quarta Lâminas de Abraham o Judeu onde na nossa fundamentada opinião, são apenas designadas simbolicamente matérias inerentes às operações descritas sem nenhuma referência astrológica visível.

Por isso caros amigos, não nos dispersemos em discussões filosóficas e interpretações irrealistas do que é a alquimia, porque sendo ela uma técnica operativa é a aplicação direta da alquimia teórica que conduz à procura da Pedra Filosofal ou Medicina Universal.

Já tivemos ocasião de divulgar a nossa opinião baseada na dos Grandes Mestres acerca da Pedra Filosofal e da Medicina Universal e, por isso será desnecessário repetí-lo.

É certo que determinadas matérias e operações alquímicas não deverão, por tradição, ser discutidas num fórum. Mas, tendo em conta que alguns dos Grandes Mestres descreveram caridosamente as suas obras em linguagem clara para a época como Flamel, Valentim, Alberto e outros, porque nós, não o poderemos fazer nessa mesma linguagem?

Alguns dirão, e com certa razão, porque fazemos esta observação quando nós escrevemos frequentemente textos sobre espagíria? A principal razão é que a espagíria é o primeiro degrau para "fazer a mão" para a alquimia.

Não temos nem nunca tivemos a presunção de dar "lições" de alquimia ou de espagíria mas apenas tentar repartir com aos outros um pouco do que ao longo dos anos aprendemos com outros irmãos e Mestres para que eles possam encontrar o seu próprio caminho.

Um verdadeiro alquimista deverá de ter a humildade de escutar os outros irmãos mesmo que estes estejam no caminho errado mas convencidos que estão a trilhar o caminho certo.

Nenhum alquimista poderá ter a pretensão de saber tudo sobre a Arte mesmo que tenha lido todos os livros de alquimia do mundo e ser um hábil operador no laboratório.

Há sempre alguma coisa a aprender com outros e, para isso, são muito importantes as trocas de impressões.

Presentemente não temos conhecimento de que haja algum alquimista moderno que seja um ADEPTO, isto é, que tenha realizado a Grande Obra e obtido a Pedra Filosofal ou Medicina Universal. Sabemos que um alquimista francês que foi nosso Mestre, que muito admiramos pelo seu grande saber e que estávamos convencidos de que tinha feito todas as Vias alquímicas, fez apenas alguns "particulares".

Mesmo o Grande Mestre que foi o verdadeiro Fulcanelli (Lubicz), Julien Champagne, o seu discípulo Canseliet e até Dujols não terminaram a obra pela via seca tendo Fulcanelli feito apenas um "particular". (in Fulcanelli Devoilé)

Para alguns pretensos alquimistas e "maestros" tais como os sopradores de outrora, que teimam afirmar publicamente as suas opiniões de textos mal interpretados e moldados à sua conveniência que poderão induzir em erro quem os ler, um verdadeiro alquimista, deverá, sem arrogância, repor a verdade e não permitir que a nossa Arte saia desacreditada.

Nunca se conseguirá aprender alquimia apenas pela leitura dos livros sobre a Arte sejam eles dos melhores autores clássicos ou modernos sem ter o "background" suficiente para isso. Em alquimia, cada um terá de percorrer o seu próprio caminho, seja só, se o conseguir, ou com a ajuda da mão caridosa de outro irmão ou de um Mestre.

A este respeito, Alberto o Grande no Composto dos Compostos diz: « A ciência que aprendi sem ficções vo-la transmito sem pena. A inveja transtorna tudo, um homem invejoso não pode ser justo ante Deus.»

Rubellus Petrinus

 

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